Quem tem medo de pagamentos por aproximação?

Os pagamentos contactless se tornaram uma tendência que deve se popularizar ainda mais este ano. De acordo com a MasterCard, eles cresceram 344% no Brasil entre o segundo semestre de 2017 e o primeiro semestre de 2018.

O número de transações que ocorrem por mera aproximação entre um cartão ou dispositivo e uma maquininha já representa 20% do total, ainda segundo a bandeira. E é justamente a MasterCard que está na vanguarda do incentivo a esse tipo de pagamento.

A partir de abril, todos os cartões emitidos pelos bancos parceiros da marca terão que vir obrigatoriamente com NFC. Essa sigla significa Near Field Communication, ou Comunicação por Aproximação em bom português.

É por meio dela que tanto cartões de crédito e débito compatíveis quanto dispositivos como smartphones, relógios e pulseiras conseguem se comunicar com as maquininhas e efetuar os pagamentos só de chegar perto.

No Brasil, transações de até R$ 50 em geral não pedem senha, tornando o processo mais rápido para pequenas compras. Alguns bancos como o Original e a fintech Nubank já se adiantaram e passaram a oferecer todos os cartões com contactless.

Outras instituições como o Banco do Brasil e o Santander, além de fintechs como Trigg e BPP, oferecem pulseiras com NFC. Ainda temos as carteiras digitais Google Pay, Apple Pay e Samsung Pay que operam no Brasil e há outras dos próprios bancos.

Um exemplo é o app Ourocard, que pode ser usado para fazer compras aproximando o smartphone de uma maquininha. De acordo com as fabricantes de máquinas de cartão, cerca de 80% do comércio já está pronto para aceitar pagamentos por NFC.

É nesse cenário cada vez mais sem contato que encontramos ainda diversos vendedores sem conhecimento da tecnologia que já está nas mãos deles. Pior é quando temos empresas orientando seus funcionários a recusarem pagamentos por aproximação.

Isso é ilegal, pois fere o Código de Defesa do Consumidor em seu artigo 39. O cliente não pode ter a venda recusada, estando ele disposto a pagar por ela:

CDC – Lei nº 8.078 de 11 de Setembro de 1990

Dispõe sobre a proteção do consumidor e dá outras providências.

Art. 39. É vedado ao fornecedor de produtos ou serviços, dentre outras práticas abusivas: (Redação dada pela Lei nº 8.884, de 11.6.1994)

IX – recusar a venda de bens ou a prestação de serviços, diretamente a quem se disponha a adquiri-los mediante pronto pagamento, ressalvados os casos de intermediação regulados em leis especiais; (Redação dada pela Lei nº 8.884, de 11.6.1994)

Código de Defesa do Consumidor

A diferença mais visível entre um pagamento tradicional, inserindo o cartão, de um pagamento sem contato é que obviamente não há inserção e, na maioria dos casos, sequer precisamos digitar senhas. O processo todo flui de forma mais rápida.

Não muda em nada nem tem custo extra para o dono do estabelecimento quanto ao recebimento pela venda realizada. Todo processo após aproximar o dispositivo acontece como se fosse um cartão tradicional.

Porém o cliente tem outras vantagens além do tempo reduzido para concluir a compra. Por segurança, é preciso usar sua digital, reconhecimento facial ou algum bloqueio de tela como um PIN quando é usada uma carteira digital. Não basta aproximar o telefone.

Esses serviços ainda criam um número de cartão virtual para cada cartão real que você tem adicionado, o que aumenta mais sua proteção. Os dados verdadeiros ficam a salvo e você pode usar o telefone para pagar mesmo sem internet.

E ainda podemos fazer compras em aplicativos, como realizar um pedido no iFood. Esse é o futuro, onde podemos esquecer a carteira em casa e pagar só com o celular, relógio ou pulseira. Os estabelecimentos precisam conhecer e implementar em vez de temer.

Eu mesmo uma vez já passei por uma situação onde fui fazer uma compra na praça de alimentação da universidade. Não era a primeira vez que eu pagava por aproximação ali, mas as coisas não correram bem como das outras vezes.

Um dia a atendente do caixa decidiu selecionar propositalmente a função crédito para um pagamento no débito. Tudo para usar o pretexto de que a transação estava falhando por algum motivo alheio. Nunca mais comprei lá.

Marcos Bravo, um desenhista-projetista de Sorocaba (SP), passou por uma situação parecida. Ao chegar no caixa de um supermercado e mencionar que pagaria com a carteira digital da Apple, recebeu uma recusa do atendente.

“Ele falou ‘o seu é aproximação? Não aceitamos aproximação aqui'”, conta Bravo em seu relato no grupo não-oficial Apple Pay Brasil no Telegram. “Falei para prosseguir com a compra no crédito, daí apareceu ‘aproxime’ na máquina”, continua.

“Eu disse que estava pedindo para aproximar, que então eles aceitavam. O vendedor respondeu que não poderia, norma da empresa”, conclui. Além de recorrer ao Código de Defesa do Consumidor, é possível também denunciar para a Visa ou para a MasterCard.

Os membros do grupo sugeriram ainda que ele reclamasse no Facebook do estabelecimento e nos comentários da listagem no Google Maps. Quanto aos vendedores que ainda desconhecem o pagamento por aproximação, vale ensiná-los.

É bem simples: na maioria das máquinas, basta digitar o valor da venda, selecionar se é crédito ou débito e aí você aproxima o telefone ou dispositivo e pronto. Nem doeu. Em alguns poucos casos, é preciso acessar o menu da maquininha.

Em outra lanchonete da praça de alimentação, a atendente do caixa gostou do que aprendeu. Agora sempre que vou lá e mostro o telefone, ela já sabe o que fazer. Passou a mexer com uma nova tecnologia, que ela considerou mais rápida e prática.

Com a potencial e crescente demanda por pagamentos sem contato, está pronta para atender os clientes.

Símbolo de pagamentos sem contato
Encontrar uma máquina com este símbolo é bom sinal. Foto: Reprodução

Muitas máquinas da Stone, Rede, Cielo, Bin, GetNet e outras são compatíveis. Você sempre vai ver alguma variante de “aproxime, insira ou passe o cartão” na tela do aparelho quando é possível pagar sem contato. O símbolo acima dá a dica.

Com mais cartões disponíveis com NFC e usuários de carteiras digitais, mais clientes deverão pedir por esse tipo de transação. Os pagamentos por NFC trazem mais rapidez, segurança e reduzem filas sem custos extras para nenhuma das partes.

A tecnologia MST

Não estamos falando do Movimento dos Sem Terra, mas sim de uma tecnologia da Samsung que simula uma tarja magnética de cartão físico. Porém ela é menos prática que o NFC. Você pode ter a senha ou código de segurança do cartão solicitados.

Enquanto tem uma compatibilidade maior que a do NFC, bastando que a maquininha leia cartões de tarja, tem a desvantagem de ser menos conveniente. Alguns vendedores podem ainda pensar que a maquininha é compatível com NFC por conta do MST.

Mesmo não sendo, será possível pagar por aproximação ao esfregar um telefone Samsung com essa tecnologia na lateral ou topo da maquininha. Aí você pode explicar ao vendedor a diferença entre as duas tecnologias e lamentar a ausência do NFC.