Como começar um podcast com pouco dinheiro

Se você pretende iniciar um programa de podcast mas não quer entrar em falência ao fazer isso, é mais possível do que imagina. Tem o jeito aquém mas que funciona e tem o jeito ideal que custa mais caro. Mas nada que umas parcelas no cartão não resolvam.

O básico que você precisa é: um microfone, uma interface de áudio, um computador e um programa de edição. Esse último dá para começar sem gastar um tostão com o Audacity, já para os demais será preciso tirar o escorpião do bolso.

O editor de áudio

O Audacity é um programa gratuito que permite gravar e editar áudio, fazer tratamento do som, adicionar efeitos e ao final converter tudo para os mais populares formatos, como o MP3. Você também pode exportar para OGG, AAC, WMA ou usar um codificador a gosto.

Use o Audacity para editar os episódios do seu podcast.
O Audacity é um editor gratuito para seu podcast.

Essa lista não inclui tudo o que pode ser feito ou a totalidade de opções de salvamento, mas já dá para ter uma ideia do que você vai ter para começar. Você pode baixar o instalador no site oficial e então seguir alguns passos para configurar os conversores.

Por motivos que fogem do controle dos desenvolvedores, não foi possível incluir os arquivos necessários para salvar seus episódios em MP3 ou AAC, por exemplo. Mas nada que um tutorial não resolva. Se quiser usar um codificador diferente como o QAAC, clique aqui para entender a lógica de como funciona a configuração.

O microfone

Um microfone inicial muito bom e também popular é o BM-800. Você já deve ter ouvido falar nele em suas pesquisas. É um microfone condensador que não quebra o banco e oferece uma alta qualidade de captação de áudio.

Grave seu podcast usando o microfone BM-800
Um dos designs encontrados na internet. Mas não é assim que se usa… Foto: Reprodução.

Ele é um equipamento white label, o que explica por que você vai encontrar ele em diferentes cores e marcas. Elas compram o produto, colocam o nome delas e revendem. Na internet você encontra por cerca de R$ 80 na Gearbest ou R$ 90 na Banggood. Tem também na AliExpress em várias faixas de preço, com acessórios ou sem.

No Brasil, o preço sobe para em torno de R$ 100 como no marketplace do Submarino ou da Americanas. Há também ofertas que incluem acessórios como um braço articulado, uma windscreen (ou anti-puff) e/ou um pop filter para evitar picos causados pelo ar que sai de nossas bocas, plaquinhas de som USB, entre outros.

Com isso, o preço pode subir para cerca de R$ 200 ou mais, porém você estará melhor equipado para se preocupar apenas em gravar seu programa. Importando, esse valor pode cair pela metade.

Use os links abaixo para comprar o seu BM-800:

Para quem tem o bolso um pouco mais fundo pode investir no Arkano UM-01, que conta com uma melhor resposta de graves em relação ao BM-800 e também possui um melhor acabamento e cápsula maior. Você pode importar ele no AliExpress.

Agora, o problema com microfones condensadores é que eles são muito sensíveis. O meu BM-800 conseguiu captar a porta da geladeira fechando na cozinha de casa com a porta do meu quarto fechada. Para um melhor desempenho, o ideal é usá-lo em ambientes minimamente controlados.

Se há muito ruídos de aviões, trânsito, outras pessoas na casa, ventilador, ar condicionado, tudo isso pode acabar na sua gravação. Para esses cenários em espaços sem tratamento acústico relevante, é melhor adquirir um microfone dinâmico.

A vantagem deles sobre os condensadores é focar mais no que está bem próximo a eles e não nos ruídos ao redor. Por isso é muito utilizado em shows ao vivo, por exemplo. Você não vai ver um microfone condensador nessas condições.

Além disso, você terá uma “voz de locutor”, já que ele é muito usado em rádios ao redor do mundo. Porém a voz deixará de soar tão natural quanto num microfone condensador, mas isso não é exatamente um problema. Ela vai soar diferente, mas não de uma forma ruim.

Então se a acústica do ambiente onde você grava não é boa, sofre com ruídos das proximidades e você não pode ou não quer investir em revestimento acústico, o microfone dinâmico é o caminho a seguir para você. Ele vai se concentrar na sua voz e abaixo eu indico alguns modelos de microfone desse tipo, que são os chamados cardioides e captam áudio numa área em formato de coração.

Isso permite que você mova ele horizontalmente sem que nada deixe de ser gravado.

Os três primeiros são versões genéricas de seus originais e o produtor musical Chrys Gringo testou eles neste vídeo ao indicá-los. Para estes modelos, você não poderá contar com um phantom power, precisando adquirir uma interface de áudio como a da Behringer a seguir.

Se você tem um pouco mais de dinheiro no bolso ou pode comprar parcelado e quer algo que simplesmente funcione, de marca e recomendado por vários profissionais, escolha o modelo da Audio-Technica. Ele é USB (e conta com conexão XLR também), o que significa que basta plugar no computador e usar.

Não precisa de interface de áudio nem phantom power, porém há um preço por essa conveniência. A qualidade de áudio é excelente, como se pode esperar da marca que ele estampa e ainda tem uma saída para fone de ouvido, permitindo que você tenha um retorno da sua voz.

Muitos vídeos no YouTube de profissionais que trabalham com podcast recomendam esse modelo para quem está começando devido à sua versatilidade e qualidade. Também, pelo preço, já daria para comprar outros conjuntos de equipamentos, como a interface de áudio e um microfone. Mas já vem tudo embutido nele.

A interface de áudio

Para microfones condensadores

Se você usa um desses, pode comprar ou uma interface de áudio ou um phantom power avulso. O mais barato é adquirir este último por cerca de R$ 100. Se você tem um BM-800, ele já vem com o cabo XLR-P2 que vai na porta “output” do equipamento e se conecta na entrada de microfone do computador.

Apenas o phanthom power para microfones condensadores de podcast
Esse equipamento é o que chamam de phanthom power.

Porém você ainda vai ter que comprar um cabo balanceado XLR macho para fêmea. Uma ponta vai no microfone condensador e a outra vai na porta “input” do phantom power.

O phantom power é quem fornece os 48v que o microfone precisa para funcionar adequadamente. Claro, na internet tem gente falando que o BM-800 vai funcionar ligado direto no computador ou numa plaquinha de som USB, mas os resultados variam grandemente.

Pode funcionar bem, pode ficar ruidoso, ficar muito baixo ou simplesmente não funcionar. Pra mim não funcionou, mas microfones condensadores foram feitos para operar usando uma alimentação de 48v, então vamos dançar de acordo com a música para obter melhores resultados.

Mas se quiser arriscar, abaixo tem alguns links para adquirir uma placa de som USB que reduz o preço dos R$ 350 de uma interface ou R$ 100 de um phantom power para R$ 20. Não sem os seus “poréns”.

Para microfones dinâmicos

Se preferiu seguir por esse caminho, você não vai poder usar um phantom power. Somente a interface de áudio vai te servir. A mais barata é essa Behringer U-Phoria UM-02, que custa cerca de R$ 350.

Com essa interface Behringer U-Phoria UM2, seu podcast poderá extrair o máximo do seu microfone
Interface de áudio Behringer U-Phoria UM2. Foto: Reprodução/UpTone.

Ela é compatível tanto com microfones dinâmicos quanto com condensadores pois inclui phantom power e você pode apertar um botão para ativar isso quando for necessário usar. Mas como o foco desse tópico são os microfones dinâmicos, mantenha o recurso desligado.

Você vai ligar o cabo XLR macho para fêmea, sendo uma ponta no microfone dinâmico e a outra ponta na porta MIC/Line 1. Conecte a porta USB da interface de áudio no computador e você está pronto.

Alguns microfones dinâmicos possuem um cabo P2 ou então se conectam diretamente ao computador via USB, como é o caso do modelo da Audio-Technica já mencionado.

Outros acessórios

Se você comprou apenas o microfone, vai se interessar também em adquirir outros equipamentos que vão facilitar sua vida e impedir ruídos indesejados nas gravações. Para começar, você pode comprar um braço articulado.

Ele vai segurar o microfone para você sem gambiarras e permitir a instalação de outros acessórios listados a seguir.

Outra coisa que vai ser importante conseguir é um windscreen, também conhecido como anti-puff, ou um pop filter. O primeiro é aquela espuminha preta que fica na cabeça dos microfones. O segundo é uma tela que fica na frente da cápsula. Ambos servem para evitar que o ar que sai da boca ao pronunciar palavras com P e B causem picos na gravação e estraguem o áudio.

Um anti-puff e um pop filter, respectivamente. Foto: Reprodução.

A espuminha ainda serve para limitar os ruídos captados pelo microfone, o que ajuda no caso dos condensadores e sua sensibilidade. Como em geral os microfones já acompanham ela, vou colocar links apenas para o pop filter.

Ele fica fixado no braço articulado. Agora outro auxiliar importante para uma melhor qualidade de gravação: a aranha, ou shock mount.

Essa é a tal da aranha, mas ela não morde ninguém. Foto: Reprodução.

É um produto que suspende o microfone usando cabos elásticos, evitando que batidas na mesa ou no braço articulado sejam registradas no áudio.

Prefira modelos feitos de metal e com presilha aos de plástico e sem presilha (que basta empurrar o microfone no círculo, facilitando a quebra). Também preste atenção se ele é feito para microfones condensadores ou dinâmicos, comprando de acordo com o mic que você possui.

Se você tem um microfone condensador mas não tem um ambiente acusticamente tratado, pode encomendar uma bola que parece um anti-puff gigante. E é quase isso mesmo. Se trata de uma esfera que limita os ruídos do ambiente e reverberação do som em salas não tratadas.

A Alctron PF8 é uma bola de espuma que ajuda a filtrar ruídos do ambiente.

É um bom quebra galho para poder ser usado nessas situações ou em viagens, por exemplo. Sua voz vai ficar mais focada e boa parte dos ruídos e outros problemas serão mitigados.

O formato de áudio

Há muita discussão sobre como salvar o resultado do seu trabalho de edição sobre a gravação bruta. O jeito impossível de errar é exportar o episódio em formato MP3, que é amplamente compatível com os mais diversos programas de computador e equipamentos.

Podcasts famosos como o Mamilos, do B9, utilizam esse formato. Os episódios são salvos em MP3 estéreo a 128 Kbps constantes (CBR). O arquivo de áudio exportado desta forma para um episódio de 01h40 resulta em cerca de 90 MB.

O segundo formato mais popular e indicado é o AAC, o queridinho da Apple. Sabe o exemplo acima do Mamilos? Convertido para M4A (uma das extensões para arquivos de áudio AAC) a 128 Kbps estéreo em modo HE (High Efficiency, Alta Eficiência), o tamanho do arquivo resultante cai pela metade sem perder a qualidade.

Com esse formato, você pode fazer exatamente isso: arquivos de áudio com alta qualidade mas sem pesar na transmissão. Porém, ao contrário do MP3, o AAC não é tão amplamente compatível apesar de ser considerado sucessor dele.

Você pode brincar um pouco mais criando um arquivo de áudio a 96 Kbps de taxa de bits ou converter de estéreo para mono e ter um arquivo ainda menor sem grandes perdas de qualidade. Assim pessoas ouvindo pelo 4G, por exemplo, terão mais pacote de dados para escutar mais episódios seus.

Então basicamente é isto. Existem outros formatos como o OGG Vorbis e o WMA mas demandam mais processamento ou são exclusivos de uma plataforma e no geral pouco populares. Para chegar até onde seu ouvinte está é preciso que ele de fato possa ouvir o que você produziu.

Um rápido comentário sobre a taxa de amostragem é que você pode deixar isso no padrão, que é de 41.100 Hz (41.1 KHz) e está de bom tamanho, não havendo com o que esquentar a cabeça. Ah, e não esqueça de manter uma cópia dos seus episódios editados ou brutos em formato WAV ou FLAC.

Isso permite que você tenha um arquivo de áudio não comprimido e sem perdas (lossless) do qual exportar um novo arquivo em formato com perdas (lossy, como o MP3 mesmo). É como ter um arquivo original para depois poder voltar e editar se necessário para então exportar para outros formatos comprimidos.

Estéreo ou mono?

Por fim, vamos esclarecer esta dúvida. Tudo depende da proposta do seu programa. Se ele é mais um talkshow, um bate papo, você discorrendo sobre algum assunto, exporte um arquivo de áudio em mono. Isso poupa preciosos megabytes e não prejudica a qualidade da sua gravação.

Tudo vai sair pelos dois ou mais canais do dispositivo que estiver reproduzindo o arquivo e o ouvinte poderá escutar tudo sem problemas nem reclamações. Agora se seu programa é mais dinâmico e conta com efeitos sonoros brincando com os canais estéreo, aí sim justifica salvar desta forma.

Ou você pode salvar em estéreo por ter dado na telha em qualquer situação, o que não tem problema também. Mas isso resultará em um arquivo maior que vai ser percebido da mesma forma que um arquivo em mono caso não tenha efeitos especiais nos canais.

Considerações finais

Pronto, com essas informações você já pode começar a montar o seu estúdio e dar os primeiros passos conhecendo informações básicas sobre a escolha dos materiais até o exportar do arquivo final. A seguir, fica a publicação do seu programa para que todos possam ouvi-lo. Mas isso é assunto para outro post.

Seguindo os direcionamentos aqui expostos você terá em mãos um microfone de boa qualidade, podendo adquirir ainda alguns assessórios que vão ajudá-lo a captar o áudio sem ruídos e com suporte para o microfone que evita vibrações.

Isso vai facilitar muito a sua vida e resultar num programa com qualidade sonora. Depois disso é só fazer os recortes, efeitos e tratamento para então exportar seu arquivo de áudio no formato que preferir. Use este post como ponto de partida e se aprofunde mais no assunto para aprender, por exemplo, como fazer esse tal tratamento de áudio.

Boa sorte e sucesso com seu programa!

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